Por Turi Collura
Hoje quero falar de um assunto com o qual me deparo frequentemente: o desejo de vários alunos que querem estudar harmonia e improvisação.
Nada de mal, em querer estudar harmonia E improvisação, desde que entendamos que se trata de dois estudos distintos, que precisam de caminhos distintos.
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… Então vamos lá!
HARMONIA: seus estudos fazem parte de um vasto campo que pertence à Teoria Musical. De forma geral, podemos dizer que estudar harmonia significa entender a formação dos acordes, a relação entre os acordes, a relação entre acordes e escalas. Podemos considerar a Harmonia como a “Gramática“, ou seja, o conjunto de regras que regem o uso da música, da composição, da improvisação.
Logo, entendemos que a harmonia está à base de tudo… pois, ainda em um paralelo com a linguagem falada, a gramática está à base de tudo. Veja: conhecendo a gramática, você pode escrever um texto jornalístico, uma poesia, uma propaganda para vender seu carro, escrever a lista de compras do supermercado, fazer uma declaração de amor, escrever um texto científico e por aí vai.
Existem cursos de gramática… mas não existem cursos de “gramática e jornalismo”, ou de “gramática e literatura científica”, certo? Pois a gramática está à base dessas outras coisas.
MELODIA: Existem e sempre existiram, em todas as épocas, inúmeros estudos sobre as teorias da harmonia… raros são os estudos sobre COMO SE FAZ UMA MELODIA! É claro que a relação entre melodia e harmonia é muito estreita. Mas não se trata da mesma coisa. Baste pensar que o elemento rítmico é determinante para a melodia, enquanto o ritmo não tem a ver com o estudo da harmonia, certo?
COMPOSIÇÃO: Podemos compor um samba, uma sinfonia, uma valsa, um jingle publicitário, uma trilha para game, certo? À base disso está a \”gramática\” harmônica, isto é, a Harmonia. Mas a composição não é apenas harmonia, certo?
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IMPROVISAÇÃO: Antes de mais nada, vai uma pergunta: “O QUE É IMPROVISAÇÃO”?
Podemos dizer que improvisar significa criar algo de forma extemporânea, isto é, na hora. Para isso precisamos de uma série de habilidades que incluem certo domínio de:
– Harmonia
– Composição
– Rítmica
– Melodia
– Forma musical
– Criatividade
– Técnica ao instrumento
– Estudo de frases
– Percepção apurada (reconhecimento de intervalos, acordes, sequências harmônicas…)
… entre outras coisas!! Então, depois de poucas palavras, faz sentido buscarmos estudar Harmonia e Improvisação em um único curso/livro/método?
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Algumas outras considerações:
– Enquanto o estudo da harmonia é, muitas vezes, apenas teórico (eu não concordo com essa prática, no meu curso e nas minhas aulas de harmonia busco sempre estimular o aluno a “manusear” os elementos harmônicos e a reconhecê-los do ponto de vista auditivo, por exemplo), o estudo da improvisação é um estudo muito mais voltado para a prática.
– A abordagem de uma e outra disciplina é, necessariamente, diferente! Pense: é fácil entender como funciona, por exemplo, o campo harmônico maior e escrever no papel a harmonização da escala em todos os tons, certo? Já o seu domínio, em todos os tons, no instrumento não é tão rápido assim, não é? E mesmo depois de ter colocado em prática todos os acordes e as escalas… estamos em condição de improvisar?
Bom, a pergunta se para improvisar precisamos antes mergulhar em um estudo profundo das escalas de acordes faz sentido agora, né?!?! É claro que conhecer as escalas modais e sua relação com a harmonia pode ser algo interessante (a partir de certo nível Jedi)… mas não é nada recomendável que isso seja a primeira abordagem… nem a segunda…
Estudar harmonia é uma coisa, estudar improvisação é outra. O conhecimento da “gramática” musical (isto é, da harmonia) é bom, mas não é tudo. O mundo da improvisação é um campo fascinante, engloba muitos elementos, aspectos, técnicas, abordagens, pontos de vista.
Improvisar pode ser simples ou muito sofisticado. Afinal, que tipo de expertise estamos buscando? Para que tipo de improvisação? Para criarmos o quê? Podemos concluir, então, que o estudo da harmonia faz parte do estudo da improvisação, mas se trata, apenas, de um dos “ingredientes”, mesmo se tratando de um elemento importante. Improvisar vai muito além da análise funcional, da relação escala/acorde. Envolve o estudo da melodia, da rítmica; o treinamento auditivo; o desenvolvimento de nossa criatividade e intuição. Envolve, às vezes, certos desbloqueios psicológicos. Afinal, improvisar significa abrir-se à possibilidade de errar, de tomar caminhos inesperados, aventurar-se na floresta musical, perder-se e reencontrar-se.
Até a próxima!