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Hercules Gomes: “A música pra mim é um combustível pra vida.” – Parte 1

pianista Hercules Gomes

Hercules Gomes: “A música pra mim é um combustível pra vida.” – Parte 1

Por Elvio Filho

Um grande artista pode ser reconhecido por um conjunto de características que fazem dele excepcional em sua proposta. Colocam-se aí, dentre essas características, o talento, junto de um sincero amor ao que se faz, e também as muitas horas de estudo e trabalho dedicadas ao objetivo de aperfeiçoar seu ofício. Mas, para além dessas características, uma outra me parece fundamental: a simplicidade de caráter. Simplicidade esta que permite ao indivíduo não apenas falar de sua arte com naturalidade, mas também praticá-la.

Tudo isso encontrei no pianista e compositor Hercules Gomes, ao visitá-lo na casa de sua mãe em Cariacica – cidade onde nasceu e foi criado antes de se mudar para São Paulo –, quando veio passar o natal com a família. Começo então o diálogo perguntando do Hercules Gomes tendo os primeiros contatos com a música, mas busco não apenas aspectos profissionais de sua vida, e sim também a visão pessoal que ele tem de questões relacionadas à música.

Você começou a tocar aos 13 anos de idade. O que fez nascer em você o interesse pela música e, mais especificamente, pelo piano?

Comecei com 13 anos aqui nesta casa. Meu pai toca um pouquinho de violão e começou a me ensinar. Lembro até hoje que um dia ele deixou um tecladinho aqui – ele ensaiava com uns amigos dele –, e aí eu peguei o tecladinho e comecei a tirar umas melodias de ouvido. O primeiro contato com um instrumento de teclas foi esse. E como eu já tinha um contato harmônico com o violão e cresci ouvindo meu pai tocar, era uma coisa meio intuitiva. Foi daí em diante que eu comecei a me interessar pelo teclado e pelo piano – piano mesmo foi bem mais pra frente.

Mas o que foi que te fez querer realmente seguir nessa área, e não ficar só no hobby?

Sabe, tem aquela máxima que o pessoal fala, mas que é verdade: “você não escolhe a música, é ela quem te escolhe”. Parece bobagem, mas é verdade. Tipo, você vai fazendo as coisas e tal, e quando vê, já está. Quando eu vi, eu já tinha saído da casa dos meus pais, tinha ido estudar música e já estava tocando profissionalmente fazia anos. Aí eu falei comigo mesmo: “sou músico, né?” E não sei fazer outra coisa, então tenho que continuar sendo (risos). Então não teve um momento em que eu decidi ser músico.

pianista Hercules Gomes
O pianista Hercules Gomes

Do ponto de vista do estudo formal de música, você começou estudando aqui no que hoje é a Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), e depois optou pelo bacharelado em música popular da Unicamp. O que te fez escolher se especializar em música popular?

Na verdade, eu sempre tive ligação com a música popular. O erudito eu estudei porque a forma de se estudar teoria aqui era com o erudito, mas estudei muito pouco. Mais tarde eu voltei a estudar o piano erudito, mas por opção minha. Então eu queria prestar vestibular para música popular e, no Brasil daquela época, havia apenas duas opções de universidades públicas, que eram Unicamp ou Unirio. Acabei optando pela Unicamp, porque eu queria estar perto de São Paulo e por ela conceder benefícios de bolsa, moradia, naquela época minha situação financeira não era fácil. E aí fui pra lá, foi uma época muito boa pra mim.

Por que você voltou a estudar o piano erudito enquanto fazia o curso de música popular?

Isso foi o seguinte, eu entrei na música popular, e o curso era bom, a vivência era boa. Só que aí, em um ano e meio de curso, quase dois anos, eu fazia aula com Gogô (Hilton Valente, bossa novista, conheceu Tom Jobim, tocou com Dick Farney muitos anos) e perguntava muito sobre técnica para ele, porque eu sempre gostei de tirar coisas difíceis de ouvido. Só que não era a “praia” dele. Então, ele falava pra eu procurar um professor do erudito e fazer algumas aulas com ele. Comecei então a fazer aula com o Sílvio Baroni. E depois que você descobre o que Chopin fez com a mão humana, Liszt, Mozart, Beethoven, Bach, Debussy, Rachmaninov, você não quer mais voltar a tocar de uma maneira simples. E o piano vem daí. O piano que a gente conhece hoje ficou pronto no século XIX, e depois surgiu essa coisa do jazz e da música popular, mas que foi a partir disso. Então eu fiquei com esse conflito. Fiquei um tempo sem estudar nada depois de formado. Mas aí depois de uns anos eu comecei a juntar as duas coisas, porque eu nunca deixei de gostar do desafio que a música erudita te propõe (você subir num palco e encarar uma sonata de Liszt, isso é algo que você não encontra na música popular), mas ao mesmo tempo eu gosto da liberdade de criar, de compor, de pegar uma coisa que já existe e tocar do meu jeito, que é uma coisa que você não encontra na música erudita. Tudo é música, claro, mas são mundos completamente diferentes.

O pianista Hercules Gomes com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas

Você começou o curso de música popular em 2000 e terminou em 2006. Olhando hoje, mais de dez anos depois, as duas escolas, erudita e popular, o que você acha que falta nas duas, no âmbito do ensino e da prática? O que se encontra em uma que não se encontra na outra, e vice-versa?

Falando da experiência que tive, e da experiência de alunos que vêm ter aula comigo, chegavam alunos muito talentosos, que já improvisavam, inclusive, entendiam de harmonia, mas não tinham a mão preparada para o piano. Quer dizer, não sabiam tocar piano. E chegavam também o contrário, alunos muito preparados tecnicamente, mas que não entendiam nada de harmonia. Eu acho que falta isso, uma fusão. O curso de erudito precisa ter uma disciplina de harmonia funcional. Continuar com a harmonia tradicional, do jeito que sempre se estuda, mas também tem que ter a harmonia funcional. Acho que tem que ter improvisação como disciplina complementar. E eu acho que o popular também tem que ter alguma coisa complementar, no caso do piano, de técnica, de repertório clássico, para que você conheça o instrumento. Porque hoje em dia um aluno começa a estudar jazz, ele não conhece o instrumento. Ele estuda harmonia, improvisação, criatividade, ele não estuda técnica. Mas ele precisa ter uma preparação para saber tocar bem, não sentir dor, para não ter tantos limites, né. Eu nunca estudei fora do Brasil, então talvez em algumas escolas do exterior essa questão já esteja resolvida, mas, no Brasil, nem a questão da música brasileira, do piano brasileiro – você vai procurar métodos e não encontra, tem pouquíssimos. Enfim, acho que é uma coisa a se pensar nas escolas brasileiras.

Agora me fale de suas influências. Desde que você começou a se interessar pelo repertório clássico e popular, até hoje, quem te influenciou?

Depende da fase. Aqui em Vitória, por meio de amigos, eu tive os primeiros contatos com música instrumental, muito fusion. Depois, na faculdade, o Gogô me apresentava muita coisa de bossa nova, de jazz, aí nessa época eu gostava mais disso. Então comecei a fazer aula com Paulo Braga, e ele foi o primeiro cara a fazer eu começar a me interessar por um repertório brasileiro, porque eu via ele tocando e pensava: “olha o que que dá pra fazer com isso…” Então, acho que não teve uma pessoa específica, acho que em cada época teve um cara que me influenciou em determinadas coisas. E acaba sendo assim que cada um vai moldando sua personalidade musical, né.

Fotos: Lucas Mercadante

Elvio Filho

Colaborador do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.