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Hercules Gomes: “A música pra mim é um combustível pra vida.” – Parte 2

pianista Hercules Gomes

Hercules Gomes: “A música pra mim é um combustível pra vida.” – Parte 2

Por Elvio Filho

Continuamos a nossa entrevista ao pianista e compositor Hercules Gomes.

E o Laércio de Freitas?

Laércio! Laércio foi um cara que eu conheci nesses festivais. Bicho, foi um impacto quando eu vi o Laércio. Falei: “Bicho, que swing! Nunca vi ninguém tocando choro no piano. Isso é tocar choro no piano!” O Laércio é meu maior ídolo vivo, tive o prazer de dividir palco com ele. Fiz as três coisas que eu não gosto de fazer hoje em dia: tocar teclado, teclado mesmo, tive que tocar hammond, sintetizador; tocar sanfona; e cantar. O que a gente não faz pelos ídolos! (risos) Fiz tudo isso no show dele. Foi muito bom passar algumas horas e uma semana com ele. A cabeça do cara não é deste planeta não, é de outro lugar. É um cara muito, muito importante. Eu comecei a me interessar mais pela obra dele de um tempo pra cá, quando eu comecei a me interessar mais pelo choro. De um tempo pra cá eu comecei a perceber mais o valor do piano no choro no Brasil, porque é um dos estilos mais importantes, e que quase não tem seguidor – praticamente não tem seguidor de choro no piano, poucos se dedicam ao choro no piano hoje em dia.

O que representa o choro pianístico na música brasileira?

Se a gente se pergunta o que aconteceu entre o período de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e o de Dick Farney, quer dizer, início da música popular brasileira até a bossa nova, o que teve de produção pianística nessa época? Vai ter uma interrogação enorme. Mas teve muita produção, que é o que a gente chama hoje de “os pianeiros brasileiros”. Estamos falando de Oswaldo Cardoso de Menezes, Aurélio Cavalcanti, Chirol, enfim, são pianistas cujas obras às vezes até ultrapassam, em quantidade, a de Nazareth, mas que estão esquecidos. Estamos falando também de Radamés Gnattali, Tia Amélia, Carolina Cardoso de Menezes, tantos e tantos pianistas que não tiveram discos relançados, as partituras são escassas e, por isso, nem nós, que somos pianistas, conhecemos. A produção pianística no choro nesses 50 anos, entre 1900 e 1950, está nesses pianistas. Depois disso a coisa foi perdendo seguidores, a música brasileira foi tomando uma influência maior do jazz.

O pianista Hercules Gomes em “Corta-jaca” (Chiquinha Gonzaga)

Hoje você ainda estuda muito?

Hoje, por conta de trabalho, filho, e tudo mais, o meu estudo tem que ser muito mais direcionado. E muito também em função do que eu vou fazer. Por exemplo, agora no início de 2018 eu vou gravar um disco em homenagem a Chiquinha Gonzaga, então estou pesquisando, ouvindo e tocando muito a obra dela. Fazendo arranjos em cima da obra dela. Então é assim, não paro pra estudar escalas, por exemplo, até porque nas músicas que eu toco já tem tudo isso.

Quanto a essa coisa de estudar muito, de ficar muito tempo sentado ao piano, o Nelson Freire, em uma entrevista, diz que ele vê com preocupação jovens ou não jovens que passam o dia estudando 10 ou 12 horas por dia. Ele pergunta: “O que eles vão transmitir? O estudo?” O que você acha disso?

É, o [Arthur] Rubinstein também falava isso. Ele dizia que em vez de estudar mais, era preciso sair do piano e ir viver, porque é preciso ter uma vivência para se passar alguma coisa através do piano. Eu acho que as duas coisas são muito importantes. Acho que tem que ter um meio termo, porque, por exemplo, um cara que vai tocar um concerto muito difícil, se ele não estudar, a obra não vai sair. Mas por outro lado, se ele ficar só nisso, acaba ficando bitolado.

O pianista Hercules Gomes em “Assanhado” (Jacob do bandolim)

Quando você participou do Festival Piano-Piano, em Buenos Aires, um jornal argentino deu uma nota dizendo que, na sua apresentação, você demonstrou uma “técnica original e implacável, a serviço de uma expressividade encantadora”. De fato, como aliar as duas coisas com sucesso? Sem que uma implique na ausência da outra?

Eu fiquei muito feliz com essas palavras. Porque esse festival foi o primeiro festival internacional no qual eu apresentei o meu trabalho. Então você fica naquela de “qual será que vai ser a reação do público?” Mas eu não sei se é uma coisa que dá pra ensinar, isso de ser original, de passar expressividade. Pra mim, é uma coisa meio natural, que eu acabo fazendo porque eu gosto do que faço. Então acho que não dá pra ensinar alguém a buscar ser original, acho que o caminho é fazer o que gosta.

Hercules, a gente sabe que o público para música instrumental no Brasil é restrito, muito embora exista, claro. Como você se dirige a esse público? O que te motiva a seguir nessa área?

É uma questão curiosa. Mesmo porque quando você fala em música instrumental brasileira, está falando de algo muito vasto. Tem o choro, tem aquele instrumental de uma escola mais do Hermeto Pascoal, tem o pop instrumental brasileiro, tipo o fusion… e pra cada uma dessas coisas há um público. Hoje em dia, mais do que antigamente, é mais fácil você encontrar seu público por conta da internet. Estou falando isso por experiência própria, porque muita gente chega ao meu som através da internet. E por acaso, às vezes. Mas mesmo fora da internet, em teatros, por exemplo, o público para música instrumental é sempre muito receptivo. Às vezes falta incentivo, ou coisas assim, mas o público em si é muito receptivo.

Fale um pouco sobre aquele concerto do Radamés Gnattali que você gravou, o Concerto Carioca nº2.

Ah, aquilo foi um sonho realizado! Você imagina, eu sempre quis tocar com orquestra. E a primeira experiência que eu tive de tocar com orquestra já foi num estúdio, gravando. Então foi bastante difícil também, tem que estar muito preparado. Mas foi uma experiência incrível. Eu gosto muito do Radamés, é uma das minhas maiores influências. Ele tem o lado erudito dele, tem o lado “chorão”, e tem o meio-termo, que é o caso dos concertos cariocas: são concertos para instrumentações populares, mas com orquestra sinfônica. E é um concerto mesmo, com três movimentos, os solistas interagem com a orquestra, algo totalmente escrito.

O que você falaria para os jovens que estão estudando música, começando agora?

Primeira coisa é que não tenham preconceito com nada. Segunda coisa é que busquem o som que vocês sentem que gostam, o som do seu coração. Busque o seu som. Esta é a mensagem que eu deixo, que é o que eu gostaria de ter ouvido quando estava começando.

O que é a música para você?

Música para mim é um verdadeiro combustível, para continuar vivendo mesmo. Acho que eu não me adaptaria tão bem a uma outra profissão quanto à música. Então a música pra mim é um combustível pra vida. Eu preciso estar tocando piano, preciso estar compondo, preciso estar fazendo coisas relacionadas à música, pra ter forças pra viver mesmo.

Fotos: Lucas Mercadante

Elvio Filho

Colaborador do Terra da Música, Elvio é formando em jornalismo. Estudou piano e flauta na Faculdade de Música do ES, dedicando-se ao piano erudito e popular. Sua vida se resume em encontrar tempo para se dedicar a todas as suas paixões: música, cinema, idiomas, literatura, jornalismo, psicanálise, e muitas outras.